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domingo, 21 de dezembro de 2008

eu vou te contar o segredo da bailarina que veio do mar . ela é filha protegida de Iemanjá . é sereia prisioneira do rabo de peixe que em noite de lua vira pássaro e foge do mar . ela só dança sob pétalas de rosas brancas banhadas nas águas de sal . o seu vestido vai florido até lá no pé e esconde o doce mistério do pássaro-peixe que vira mulher . desfila prosa, que só quem é filha de rainha, acima do bem e do mal . e vai gingando, rodeada de sete tambores, sete vidas, sete cores . e a dama faz carnaval . eu vou te contar . ! e quando canta, o seu canto é de partida, pros braços da mãe adorada . numa girada, feito coisa de feitiço, bailarina vira flor e o menino devolve pras ondas do mar .

Sobre a Saideira

vendeu seu terno, seu relógio, sua alma .. e até o santo ele vendeu com muita fé . comprou fiado pra fazer sua mortalha . tomou um gole de cachaça e deu no pé . Mariazinha ainda viu João no mato, matando um gato pra vestir seu tamborim . e aquela tarde, já bem tarde, comentava: lá vai um homem se acabar até o fim . João bebeu toda cachaça da cidade . bateu com força em todo o bumbo que ele via . gastou seu bolso, mas sambou desesperado . comeu confete, serpentina e a fantasia . levou um tombo bem no meio da avenida , desconfiado que outro gole não bebia . dormiu no ponto e foi pisado pela escola . morreu de samba, de cachaça e de folia . tanto ele investiu na brincadeira, pra tudo, tudo se acabar na terça-feira .

Sobre Pedido ao Tempo

tempo, que te quero devagar . não anda assim com tanta pressa de passar . demorou tanto pra trazer meu novo amor , se não pode parar, siga bem lento, por favor . terra que não pára de rodar . é tanta história esparramada pelo chão . em tanta vida, amor valente é coisa rara . ó terra, não dispara . deixe em paz meu coração . o tempo passa e leva quase tudo, é o que separa o começo do fim . e vai deixando um cheiro de saudade, que essa tal felicidade não tem dó de mim . por isso, tempo, atenda o meu pedido : não me separe mais de outro bem . que dessa vez 'durante' seja 'eterno' . se me leva pro futuro, leva o meu amor também .


tá .
tudo bem .
viciada já .

mas a moça canta muito bem . !

Pedido ao Tempo, Anna Luisa .

Sobre Seu Moço

quando me dei conta, já estava no meio da roda . saracoteando de par com um tal de 'Seu Moço' . Seu Moço nativo da serra , jongueiro desde menininho . com ar de gente marcada, mas um coração sem espinho . Seu Moço, assim batizado nos tempos lá da capoeira, semblante já bem castigado a custa de muita pedreira . o corpo, apesar de tudo, repleto de força e de ginga , voltou a ser um matuto, livrou-se de tanta mandinga . eu, moça de outro mundo, na roda, fui bem acolhida . fiz escola com Seu Moço . escola de dança da vida . e vamos arrastar o pé, e vamos na palma da mão . ensina, Seu Moço, teu passo de quebrar o corpo e amassar o chão .



Seu Moço, da Anna Luisa .